A fonte da juventude pode ser a convivência com os mais jovens

Autor diz que a sociedade nunca esteve tão distante dos benefícios do convívio entre gerações.

Em 2019, pela primeira vez haverá mais norte-americanos acima dos 60 anos do que abaixo dos 18. No Japão, mais da metade dos bebês se tornarão centenários e um em cada três nenéns na Grã-Bretanha apagará 100 velinhas no bolo... Como buscar realização em vidas tão longas já é um desafio nesta geração e será uma questão crucial nas próximas. Mark Freedman, pensador e militante da causa da longevidade, tem uma proposta que me encanta: para os mais velhos, a fonte da juventude é conviver com os mais jovens. Esse é o tema de “How to live forever: the enduring power of connecting the generations” (“Como viver para sempre: o poder duradouro de conectar gerações”), seu livro recém-lançado.

No começo do mês, ele escreveu artigo no “The Wall Street Journal” expondo sua tese. Segundo Freedman, podemos evitar conflitos e resolver muitos problemas, como o cuidado com as crianças e a solidão, se trabalharmos para aumentar a convivência entre as gerações. “Pergunte a qualquer avô”, brincou no texto. “Há evidências, tanto no campo da antropologia, como na psicologia, que jovens e velhos foram feitos uns para os outros. Os mais velhos têm um profundo desejo de serem necessários; os mais jovens precisam ser nutridos, protegidos. Paciência, persistência, resiliência, características que vêm com a maturidade, ajudam a cimentar essa relação”.

No entanto, lembra o autor, apesar da gritante complementaridade, a sociedade atual nunca esteve tão distante dos benefícios dessa convivência. Se já vivemos uma época de famílias grandes na qual o convívio entre gerações era a norma, hoje estamos na era da segregação etária. O próprio mercado se encarregou de lançar as comunidades para aposentados – a primeira, Sun City, foi criada em 1960, no estado norte-americano do Arizona. Infelizmente, o que se vê é que o preconceito contra o idoso está em alta e a disputa pelos recursos públicos vem se transformando numa batalha intergeracional.

Há experiências que alimentam o otimismo de Freedman, como a que vem sendo realizada em Cingapura: pré-escolas construídas no mesmo terreno que centros para idosos, com um horário reservado para a interação entre eles. Nos Estados Unidos, há cerca de 100 estabelecimentos com perfil semelhante, promovendo a convivência entre gerações. Há dois anos, a jornalista Lucy Kellaway anunciou que deixaria o posto de colunista prestigiada do “Financial Times” para ser cofundadora do grupo Now Teach (o equivalente a “Agora Vá Ensinar”). O projeto recruta quem teve uma carreira de sucesso para dar aulas. Ela própria passou a ensinar matemática numa escola londrina situada numa área de baixa renda. A Grandmas2Go (algo como “Vovós para viagem”), criada ano passado no Oregon, é uma organização de voluntárias que dão suporte a mães e pais que estão tendo dificuldades com a chegada de um bebê.

São iniciativas que ainda podem ser vistas como ações isoladas, mas que apontam para a importância de se pensar no envelhecimento como uma etapa da vida onde possamos construir algo. “Em vez de tentarmos desesperadamente permanecer jovens, ou nos apegarmos a uma juventude que já passou, podemos nos dedicar aos que realmente são jovens e precisam de ajuda. Além de nos trazer realização e felicidade, deixaremos um legado que sobreviverá a nós”, afirma Freedman, cofundador da Experience Corps, entidade que reúne pessoas acima dos 50 que queiram ajudar alunos de baixa renda a melhorar seu desempenho escolar.

Por Mariza Tavares
De G1

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Artigo publicado em 27 de novembro de 2018 por Jorge

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